domingo, 23 de maio de 2010

O avesso da travesti


Eu sou o avesso do que o Sr. sonhou para o seu filho. Eu sou a sua filha amada pelo avesso. A minha embalagem é de pedra mas meu avesso é de gesso. Toda vez que a pedra bate no gesso, me corta toda por dentro. Eu mesma me corto por dentro, só eu posso, só eu faço. Na carne externa quem me corta é o mesmo que admira esse meu avesso pelo lado de fora. Eu sou a subversão sublime de mim mesma. Sou o que derrama, o que transborda da mulher. Só que essa mulher sou eu, sou o que excede dela.
Ou seja, eu sou ela com um plus, com um bônus. Sou a mulher que tem força de homem, que tem o coração trabalhado no gelo. Que pode ser várias, uma em cada dia da semana. Eu tenho o cabelo que eu quiser, a unha da cor que eu quiser. Os peitos do tamanho que eu quiser, e do material que puder pagar. O que eu não trocaria por uma armadura medieval , uma prótese blindada talvez. A prova de balas, a prova de facas. Uma prótese dura o suficiente para me proteger de um tiro e maleável o suficiente para ainda deixar o amor entrar.
Bailarina troglodita de pernas de pau. Eu fui expulsa da escola de dança e aprovada em primeiro lugar na escola da vida. Vestibular de morte, na cadeira da “bombadeira”, minha primeira lição. Era a pele que crescia e me dava a aparência que eu sonhava. Conosco, a beleza e a morte andam de mãos dadas.
No mesmo trilho de uma vida marcada por dedos que apontam ate o fim da existecia.
Na minha esquina. Sim, aqui as esquinas tem donos. A noite, meninas como eu ou como outra qualquer, usando um pedaço de tecido fingindo ser uma saia, brincos enormes, capazes de fazer uma mulher comum perder o equilíbrio e um salto de acrílico de altura inimaginável, que a faz sentir-se inatingível. Ela merece uma medalha.
Para um carro, um homem ao volante que deixa em casa sua mulher, e quer ser mulher, ate mais feminina que nós talvez. Porque dessa vez os litros de silicone, os cabelos tingidos, os brincos enormes, o saltos altíssimos não impressionaram a ele. Seu desejo é pelo que ela não mostra nas ruas, ela vai ter que se ver como homem mais uma vez. E a vida segue. Muitas morrem, outras nascem cada vez mais novas. E assim elas vão, desviando dos tiros, esbarrando no preconceito, correndo da polícia. Mas sempre com um batom nos lábios, um belo salto nos pés e na maioria das vezes um vazio no coração.
Ela não precisa de redenção.

Rafael Menezes

terça-feira, 4 de maio de 2010

04 de maio de 2010.

Por onde andará a senhora Concentração?

segunda-feira, 5 de abril de 2010

“o melhor momento, no amor, é quando o amante se distancia no táxi”

"Parodiando a frase de Casanova, que se refere aos amores heterossexuais, segundo a qual “o melhor momento, no amor, é quando se sobe as escadas”, deixando explícito que talvez o melhor momento deste tipo de amor é o tempo de sonho que o antecede, é a sua elaboração imaginária antes que o ato sexual venha materializá‐lo e, talvez, quebrar com o seu encanto, que o melhor momento para os amores heterossexuais seria este tempo de espera, de expectativa, este longo tempo de preparação para a sua definitiva consumação, Foucault dirá que para os homossexuais “o melhor momento, no amor, é quando o amante se distancia no táxi”. Amante que, muitas vezes, foi conquistado num encontro fortuito; amores que muitas vezes não tiveram tempo nem de dizer os seus nomes, dada a urgência da satisfação do desejo; encontro instantâneo entre corpos dos quais algumas vezes mal se viu o rosto, dada a escuridão do lugar onde o encontro acontece. É quando o ato sexual acaba, é quando o tempo concentrado, a temporalidade extremamente comprimida do encontro dos corpos passa. É quando o amante se afasta, quando foi embora, que este encontro, que este corpo, que a relação vai ser trabalhada pelo imaginário. Vai ser sempre como lembrança, como memória, como um retornar narrativo sobre a experiência que este encontro ganhará contornos de sonho. Somente depois de ocorrido ele ganhará significado. Talvez, por isso, faça parte da cultura gay, do estilo de vida dos homossexuais, o falar constante, o narrar permanente de suas aventuras sexuais. Enquanto nas relações sexuais heterossexuais a fantasia antecede o ato sexual, lhe serve de estímulo, dá a ele colorido prévio, prepara a sua significação, muitas vezes, as relações homossexuais, por sua instan taneidade, vão alimentar fantasias acerca do que já se passou. Muitas vezes é ao narrar a aventura sexual porque passou, para seus amigos, para outros homossexuais, que o amante fantasiará sobre o corpo, sobre o ato, sobre a própria relação que teve com este outro. Um ato sexual afásico, um encontro que resultou apenas da linguagem dos gestos, dos toques, dos olhares, um ato sexual em que a boca esteve ocupada com outras práticas que não a da fala, pode dar origem, no tempo seguinte, a uma proliferação narrativa, a uma miríade de significações. Um ato sexual que pode ter durado minutos, no tempo que se segue, pode originar horas de narrativas, de fantasias, de sonhos. Um corpo que mal se divisou na escuridão pode alimentar a fabricação de muitos corpos narrados, imaginados, sonhados. Narrativa, quase sempre, centrada no próprio ato sexual, que é assim estendido, dilatado, monumentalizado, memorizado. Um ato, para o qual faltava tempo, ganha, assim, o tempo que não possuía."
 
MUNIZ, Durval. Amores que não têm tempo: Michel Foucault e as reflexões acerca de uma estética da existência homossexual. Revista Aulas (UNICAMP), 2010.

domingo, 4 de abril de 2010

Estéticas da Existência

“Estética da Existência diz respeito à fusão do pessoal com o público. Encontra-se na formulação do sujeito liberto das individualidades burguesas, ou na utopia do indivíduo livre e autônomo. (...). diz respeito a uma série de valores móveis construídas por práticas de liberdade na luta contra gorvenamentalidades, as relações de poder e o governo de si e dos outros, as relações de si para consigo. Trata-se de liberarmos do Estado e da individualização (...). Estética da Existência é uma ética em elaboração do presente provocando atitudes problematizadores nas relações de poder, as práticas de saber de poder e ao retorno a si, arruinando o sujeito universal.”
Edson Passetti – Estéticas da Existência: ingovernáveis
Revista Aulas, (UNICAMP), 2010.

quinta-feira, 4 de março de 2010

La vie des hommes infâmes.

“(...) ora aí está o senhor, sempre com a mesma incapacidade de transpor os limites, de passar para o outro lado, escutar e fazer ouvir a linguagem que vemde fora ou de baixo; sempre a mesma escolha, do lado do poder, do que ele diz ou faz dizer. Estas vidas, porque não ir escutá-las lá onde falam por si próprias?– Mas, antes de mais, daquilo que elas foram na sua violência ou na sua infelicidade singular, será que nos ficaria o que quer que fosse, se, a dado momento, não tivessem cruzado o poder e provocado as suas forças? Afinal, não será um dos tacos fundamentais da nossa sociedade o facto de o destino tomar aqui a forma da relação com o poder, da luta com ou contra ele? O ponto mais intenso das vidas, aquele em que se concentra a sua energia, encontra-se efetivamente onde elas se confrontam com o poder, se batem contra ele, tentam utilizar-lhe as forças ou escapar-lhe às armadilhas. Nas palavras breves e estridentes que vão e que vêm entre o poder e as existências mais inessenciais, é sem dúvida aí que estas últimas encontram o único momento que alguma vez lhe foi concedido; é o que lhes dá, para atravessarem o tempo, o pouco de fulgor, o breve clarão que as traz até nós”.
Foucault, 1977

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

"Sou travesti. Tenho direito de ser quem eu sou."



29 de janeiro - Dia da Visibilidade das Travestis
Sou travesti. Tenho direito de ser quem eu sou

Principais alvos da violência discriminatória, travestis de todo o país criaram material para sensibilizar a população contra o preconceito. A campanha de promoção de direitos humanos e prevenção à aids contém toques de celular, telas de descanso e vídeos de celular, cartazes e folderes.
É a primeira vez que as travestis produzem e criam o conceito de um material destinado para elas mesmas. Com o slogan “Sou travesti. Tenho direito de ser quem eu sou”, a proposta é promover a inserção social e a imagem positiva das travestis, além de disseminar o conhecimento sobre as formas de prevenção a aids e outras doenças sexualmente transmissíveis, além do o combate à violência e à discriminação.
“Como são vítimas de violência e da dificuldade de acesso a serviços públicos, como saúde e educação, as travestis tornam-se mais vulneráveis à infecção pelo HIV”, explica a diretora do Dep. de DST, Aids e Hepatites Virais, Mariângela Simão. Produzir o seu próprio material, diz, as torna protagonistas de suas próprias histórias. Na vida real, elas não são ouvidas, nem vistas. Não acolhidas de forma adequada nos serviços de saúde, elas também têm mais dificuldades para recorrer aos instrumentos necessários à prevenção às DST e outros problemas de saúde.